Produto de graça para influenciador é publicidade para 59% dos brasileiros
Receber um produto de graça e falar bem dele é publicidade para 59% dos brasileiros. Eles se dividem sobre o que exigir: 33% querem o selo de publi e 26% acham que basta o influenciador avisar que ganhou. Outros 26%, um bloco do mesmo tamanho mas de sentido oposto, já desistiram da distinção e respondem que tanto faz, porque assumem que todo elogio é pago.
O Guia de Marketing e Publicidade por Influenciadores Digitais do CONAR está em vigor desde maio de 2026 e passou a tratar a reciprocidade entre marca e influenciador como suficiente para caracterizar publicidade, mesmo sem contrato. Ele também criou uma categoria para o benefício não remuneratório, que não leva selo mas exige revelar a origem. A medição encontra um público que chegou perto desse desenho por conta própria: 26% respondem que é publicidade e basta o influenciador avisar que ganhou o produto. A ideia já circulava no meio antes da norma. O que 2026 trouxe foi a categoria formal.
É aqui que a leitura exige cuidado, porque a cartela tem dois blocos empatados em 26% dizendo coisas opostas. Um é o que acabou de ser descrito, o que pede o aviso. O outro respondeu que tanto faz, porque já assume que todo elogio é pago. O primeiro quer mais informação, o segundo parou de esperar por ela. Somar os dois transformaria uma recusa em exigência, e por isso o número nunca aparece sozinho nesta nota: ele vem sempre com o rótulo da opção que representa.
A cobrança pelo selo é organizada pela classe e se comporta como letramento publicitário: 42% na classe A, 26% na E, enquanto a resposta de que não é publicidade quase dobra, de 11% na A para 21% na E. O cinismo, ao contrário, é transversal: quem diz tanto faz fica entre 22% e 28% em todas as classes. Pesquisas de mercado já mostravam atenção alta ao selo entre quem acompanha influenciador, e o que esta medição acrescenta é onde essa atenção vira exigência e onde ela já virou desistência.
Para quem investe em creator, a leitura é direta. O prêmio de credibilidade que justifica trocar mídia tradicional por influenciador é menor do que o mercado assume, e onde ele ainda existe é onde o olho é menos treinado para reconhecer publicidade.
“É publicidade, mas basta ele dizer que ganhou o produto. Eu mesmo já vi uns vídeos da minha neta falando de uns cremes que ela ganhou, e ela sempre dizia que recebeu da marca. Pra mim, isso já deixa claro que não é 100% opinião, né?”
homem, 71, aposentado, Limeira
“Tanto faz, eu já assumo que todo elogio é pago. Pra mim, se a pessoa recebeu o produto de graça, ela já tá fazendo propaganda, sim. Eu mesma, quando recebo alguma coisa aqui na loja de um fornecedor novo, já sei que ele espera que eu fale bem. Ninguém dá nada de graça, né? A gente que é comerciante sabe bem como funciona isso, é tudo estratégia.”
mulher, 33, comerciante, Aparecida